
Cresci em um bairro tipicamente residencial, tranquilo e simples. Recordo que na minha infância, algumas ruas sequer eram asfaltadas e, isso já faz um bom tempo. Desde as primeiras olhadas pela janela, vi uma porção de caras parados na esquina, aqui perto de casa. Estavam sempre ali as figuras, observando o movimento. Meus pais diziam que eram vagabundos, pessoas sem objetivos, blá blá blá.
Hoje, após 20 anos, alguns continuam lá. Surpreende ver as rugas em seus rostos, índice de que o tempo passou. Eram "caras", agora são "tios" e continuam ali, na esquina. Angumas pessoas passam caminhando, outras de carro, fazem compras no mercadinho, casam, se separam, mudam, vivem. Enquanto isso os caras continuam na esquina. Detalhe: não são mendigos, simplesmente curtem a esquina.
Interessante é perceber que isso não acontece só na esquina da minha casa, mas também, nos caminhos que unem e separam as pessoas. Algumas aparecem do nada e, acenam com a cabeça, outras desviam o olhar, vão e vem. Mesmo tendo o sentimento de constante incompletude, mesmo buscando coisas novas todos os dias, eventualmente sinto como se estivesse ali, na esquina, parado, apenas vendo o movimento, e pensando.
Foto: Rui Lebreiro
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